quinta-feira, 24 de março de 2016

O Homem da Ladeira

As mãos molhadas de suor frio tremiam sem cessar. O olhar vazio de Amora indicava o tamanho susto que levara ainda há pouco. Maria Helena correu para o portão velho de madeira que dava de frente para a rua de terra, estava preocupada e curiosa para saber porque a filha estava naquele estado. Ao olhar a pequena estrada de chão batido, percebeu nada mais que rastros. Era comum os homens saírem a cavalo pra pescar no Rio Escuro aos fins de semana enquanto as mulheres cuidavam dos filhos, o que não acontecia com a família de Maria, composta por cinco mulheres.

- O que você viu, Amora? Desembuche! - perguntou a mãe após voltar intrigada.

- A carroça, eu vi a carroça de novo. Dessa vez eu juro que é verdade.

Helena revirou os olhos. Naquela casa ninguém mais aguentava ouvir Amora dizer que tinha visto uma carroça descer a enorme ladeira, essa lenda já estava ultrapassada para todos os moradores de Poço Fundo. O relógio ali batia sempre às onze da noite, horário para todas irem dormir. Lucuma, a irmã mais nova, dormia num colchão ao lado da cama de Amora, e todas as noites quando todos já estavam dormindo, pedia pra ouvir histórias.

- Maninha, o que você vai contar hoje?

- É você que sempre escolhe, Lu, é só dizer o que quer ouvir.

- Você pode me contar o que aconteceu hoje? A mamãe disse que não é coisa pra criança, mas eu já tô com nove anos! - disse emburrada!

- Tá, eu conto, mas você tem que prometer que ninguém vai ficar sabendo disso... promete? A irmã acenou que sim com a cabeça.

- Bom, há muitos anos atrás, quando a cidade ainda se chamava Morgélia, havia uma enorme casa que beirava a curva do Rio Escuro. Pertencia à Santol e Tâmara, um casal estranho que emprestava a casa para a dona de uma clínica para pessoas com necessidades especiais. O casal dormia no quarto mais alto da casa, separado do resto por correntes e enormes placas de aviso para não ultrapassarem. Qualquer pessoa que passasse dali desaparecia para sempre, seja paciente ou enfermeiro. Dizem que em um dia gélido e nebuloso, Massala, uma jovem com síndrome de down, saiu para dar uma volta por um dos locais proibidos sem saber. Brincou por todo o espaço até que seu pé afundou em um alçapão podre. Curiosa como toda adolescente, começou a puxar a tampa para ver o que tinha ali, mas desistiu quando sentiu o cheiro de carne estragada. Prendeu a respiração e pisou com força para terminar de quebrar.

- O que ela viu? - perguntou Lucuma com o olhar assustado e as mãos agarradas às cobertas.

- Você não ia querer saber dessa parte, vá dormir!

- Por favor, Amora, por favor.

Amora bufou e continuou:

- Ela viu dezenas de cabeças decepadas e colocadas para cima. Os buracos negros dos olhos arrancados pareciam penetrar na mente e alma. Os corpos, pelo que dizem, eram amontoados em uma velha carroça de madeira com rodas grossas, puxada por dois enormes cavalos pretos que estavam sempre bem cuidados. Baru, o escravo dos donos da casa, carregava esses corpos ladeira a baixo, até encontrar a parte mais funda e traiçoeira do rio para jogá-los.

Lucuma já quase não prendia as lágrimas de medo. Amora percebeu e parou.

- Desculpa, eu não queria que ficasse com medo, você disse que já era crescida.

- Eu não estou com medo! - disse ela tentando provar a coragem para a irmã. - Por que eles faziam isso com as pessoas?

- Guardavam a cabeça dos desobedientes pois achavam o gosto do cérebro mais saboroso. Quanto aos olhos... bom, os olhos eram espalhados por todos os lugares da cidade. A lenda diz que é para os espíritos nunca descancarem, para sempre ficarem de olho em quem desobedece e levar estes para a Casa Morta. E foi isso que eu vi, maninha. Vi o homem negro passando com uma carroça carregada de corpos pela nossa rua. Ele enfiava sua mão suja de terra dentro de um saco de pano e tirava um punhado de olhos, alguns foram jogados no nosso quintal.

- CHEGA! - gritou Lucuma, um pouco engasgada pelo choro. - EU NÃO QUERO MAIS OUVIR!

Maria Helena entrou no quarto com o lampião aceso.

- Que palhaçada é essa? Já não vêem que passa de meia noite? Já para a sala, Lucuma, deixe sua irmã dormir em paz e não volte nesse quarto.

Naquela madrugada todos dormiram como pedras. Amora foi a primeira a levantar. Foi direto pra cozinha, fez o café e voltou para acordar as irmãs. Ao passar pela sala percebeu que Lucuma não estava lá. Revirou a casa toda, exceto seu quarto, pois sabia que ela não estava lá. Sabia que se acordasse sua mãe, a casa ia tremer com os gritos de desespero, e provavelmente levaria a culpa. A passos rápidos foi para o quarto e deu uma olhada. Olhou para o chão e viu um pequeno rastro vermelho que escorria debaixo de sua cama. A cabeça de Lucuma estava virada para cima, com a boca entreaberta e os olhos arrancados, fixados em um ponto morto.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Posto 15

Há alguns anos, no dia 9 de julho de 1994, um sábado gélido e calmo, Juliana parou em um posto de gasolina às 02:47 da manhã para descansar da maldita viagem que vinha fazendo. Inclinou o banco na última posição, puxou uma coberta do banco traseiro e cobriu-se, ligando o rádio num volume baixinho só para que não se sentisse sozinha. De fato, ela não estava.

Por volta das 03:20 am, alguém bateu na lataria do carro três vezes, fazendo com que a garota acordasse com um pulo. Ela, muito esperta, não saiu de dentro do carro para ver quem ou o que era, ajoelhou-se no banco e olhou ao redor, mas não encontrou uma sombra sequer. Voltou ao sono, sendo acordada vinte e três minutos depois, novamente com três batidas, mas desta vez foram na porta do passageiro.

Desesperada, Juliana tentou ligar o carro várias vezes, mas não obteve sucesso. Certificou-se que os vidros e as portas estavam devidamente trancadas e se deitou, tirando o celular do bolso para ligar para a emergência, mas o celular estava completamente sem sinal. Uma batida estrondosa fez com que ela olhasse para o vidro do motorista, e então ela viu aquele maldito rosto coberto por uma máscara feita de pano velho, com costuras tortas e mal feitas. Segundos depois, uma pedra invadiu o carro, acertando a cabeça da menina, que desmaiou em seguida.

Amarrada numa cama 2x2m, nua e com muita dor na cabeça, Juliana acordou. Três homens medianos, dois deles bem fortes e um mais magro, estavam em volta da garota, com bandanas cobrindo o rosto. Ela começou a gritar por socorro, quando um dos rapazes se aproximou e vedou a boca dela com uma fita prata bastante resistente. Enquanto este acariciava os cabelos da moça, os outros começaram a tirar a roupa, ficando totalmente nus. Juliana tentava gritar enquanto os homens a penetravam, mas a fita abafava de uma maneira inacreditável. Ela começou a se debater, e foi novamente desacordada, dessa vez com socos.

Quando acordou, ela continuava nua, mas agora amarrada em um pilar que sustentava o imenso teto do posto, enquanto o rapaz mais magro jogava um liquido no cabelo dela que cheirava a gasolina. Abusaram mais e mais da pobre jovem, já passava das 05:40 quando acabaram a ''brincadeira''. Sem mais delongas, um dos garotos fez um rastro de gasolina afastando-se, mais ou menos, 110 metros da garota, e não exitou em deixar um isqueiro aceso cair. Pôde-se ouvir o barulho da explosão até da cidade vizinha, que ficava logo ali.

A polícia procurou os três homens por muito tempo, mas eles nunca foram encontrados. O posto ficava muito longe de qualquer lugar, numa estrada pouco usada, por isso não havia nenhuma testemunha. Até hoje há relatos de pessoas que passam por esse posto, desde então desativado, e vê uma mulher bem no fundo da escuridão, amarrada e se debatendo, agonizando de dor.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Quinque Infernalis Pestes

Preto. Eis a cor que Croatos usava. Uma grande capa com gorro a qual cobria seus descalços pés. Sobre o barco, carregava duas miseráveis almas, tais quais trocavam moedas prateadas com o barqueiro. O barco foi seguindo o curso do vasto rio, no qual desapareceu dentre tanta neblina. As pobres almas desceram acorrentadas umas as outras, enquanto Croatos seguia rumo de volta à imensa fila na qual mais almas sofridas o aguardavam desesperadamente.

Os acorrentados seguiram gruta à dentro, em busca de algum sinal de luz. Horas sofrendo no meio da apavorante gruta escura, eis que acharam uma criatura imensamente grotesca. Olhos negros, dedos finos e longos, ombros largos e corpo esquelético. Tal criatura os guiou até um campo verde, que naquele momento encontrava-se sombrio. Lugar onde havia gritos pedindo por ajuda, sombras que passavam dentre as gigantescas árvores, mãos que acariciavam suas faces constantemente.

Lanake, a criatura, disse em uma rouca e grave voz: Que assim seja feita a primeira peste infernal: desespero! Logo o dito, tocou em uma das almas, empurrando-a escuridão à dentro. Segundos passaram, e um forte vento correu pelo campo. A alma que sobrara correu desesperadamente para o rio. Chegando as margens do tal, achou uma brilhante maça, a qual, tomado pela fome, mordeu. Ao sentir o amargo gosto, cuspiu o que mordera, vendo assim que dentro da aparentemente saborosa fruta, havia nada menos que areia. Assim que fez, pode-se ouvir a voz de Lanake bem ao fundo gritando: Que assim seja feita a segunda peste infernal: fome! Apavorado, a alma mergulhou no rio, no qual saíram dezenas de mãos podres que o puxaram para o fundo.

Croatos chegara com mais duas almas. As mesmas que seguiram por outra gruta, esta, mais profunda e tenebrosa. Puderam achar uma fraca luz vermelha no fim de um túnel que só pudera passar aquele que rastejara até o mesmo. E assim o seguiram, encontrando um grande salão de pedras, com almas jogadas ao chão, gritando enquanto outras almas abriam seus corpos com as unhas sujas e compridas.

Um grande homem de olhos brancos aproximou-se das duas perdidas almas e disse a uma das tais: Aproxime-se mais, cara alma. Ao aproximar-se, Kreteus, guardião da segunda camada do inferno, lhe deu uma foice de cor escura, a qual era para abrir uma das almas amarradas por correntes nas camas pedregosas. Sem escolha, a alma o fez, ouvindo gritos horrendos de dor. Então, Kreteus ordenou: Que assim seja feita a terceira peste infernal: sofrimento! Tomada pelo medo, a alma que restara foi seguindo rumo ao segundo salão, acompanhado do bravo guardião.

Ao entrar, viu uma grande confusão ocorrendo em volta de um velho. Um senhor claramente sofrido, de barbas brancas e longas. A alma perguntou a Kreteus: O que faz este homem sentado em meio à confusão? Por qual motivo estas almas negras gritam? O destemido guardião respondeu-lhe: Meu caro! As almas das quais você se refere estão perdidas, e o velho o qual citou é o único ser deste mundo que pode mostrar-lhes a saída, o que não fará, pois seu dever é manter a maior quantidade de almas neste recinto em que nos encontramos. Faz isso para que não faltem almas a serem torturadas. A alma disse: Isso me dá arrepios, apenas de pensar no desespero que estes seres sentem. Então, Kreteus disse-lhe: Alma cujo nome é inexistente, deixo-lhe aqui como símbolo da quarta peste.

Kreteus berrou alto: Que assim seja feita a quarta peste infernal: medo! Croatos lá do fundo vinha trazendo uma única alma na embarcação. Alma qual vestia-se de branco. Chegando as margens do rio, a alma escolheu, dentre as três grutas, a do meio. A mesma era curta, de caminho fácil, e logo de entrada se via a luz do fim. Então ela seguiu, encontrando uma porta aterrorizantemente grande, de madeira. Antes que pudesse empurrá-la, Felignis puxou-a. A alma entrou. O guardião da terceira e última camada do inferno disse-lhe: Porque veste branco na profundeza da escuridão?

A resposta veio breve: Visto-me de cor clara pois busco a paz! Felignis gargalhou alto, mudando o semblante em seguida. Pegou forte pelo braço da última alma e disse-lhe: Está vendo esta porta? Quero que abra-a e siga o curto caminho que há atrás dela. Veja se pode encontrar a paz nela.

A alma de branco abriu a tal porta, encontrando poucos metros de chão, e em seu fim o abismo. A porta fechou-se com um forte vento gelado. A alma seguiu o caminho e caiu no abismo. Enquanto fazia, ouviu a voz de Felignis dizer: Não há paz onde há pestes, meu caro. Quando terminar este abismo encontrará almas, milhares delas, que devem ser sacrificadas. Almas das pessoas que amou. E o seu trabalho será esquartejá-las, e quando fizer isto, elas vão se recompor, para que você possa matá-las, de novo e de novo, para a eternidade, para que você possa sentir medo, desespero, fome e sofrimento. Não há paz, meu caro.

E com uma segunda gargalhada, Felignis murmurou: Que assim seja feita a quinta peste infernal: Uma mistura das outras quatro pragas, a Agonia. E assim criaram as cinco pestes infernais, as quais deixam o inferno mais apavorante. Um lugar onde as almas que mais procuram a luz, encontram a escuridão do abismo.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Acampamento do Demônio

Carol acampava com os amigos 1 vez por mês, pelo menos. Dia 15 de um setembro nublado. Não parecia muito diferente dos outros. Eles chegaram na floresta horas mais cedo, para montar as barracas sob a luz do dia, já que, ao anoitecer, não se via nada sem o auxílio de um ou dois lampiões (lanternas não eram suas preferências).

O local onde sempre se acomodavam estava estranhamente tomado por um solo musgoso e flores mortas, então caminharam mais adentro da enorme mata para encontrar um terreno plano e cercado por árvores. Faltando pouco para escurecer, eles acharam um bom lugar, embora não soubessem que já estavam muito longe da saída.

Montaram as barracas, estenderam os sacos de dormir em volta da fogueira e puseram uma pequena panela com macarrão para cozinhar, enquanto conversavam sobre a longa caminhada. Era um grupo de 5 amigos, contendo um casal de meninos gays e 3 garotas.

Após comerem e conversarem um pouco mais, foram dormir. Na mesma noite, às duas da manhã, Lucas ouviu um grito próximo de onde estavam. Ele acordou seu namorado, e depois as meninas, ficaram esperando o próximo grito para ver se não era coisa da cabeça do rapaz. E, infelizmente, não era. Minutos depois, um grito agudo e extremamente perturbante percorreu por toda a mata. Todos se amontoaram em uma só barraca, apagaram a fogueira e ficaram em total silêncio.

Alguns minutos se passaram e tudo parecia tranquilo de novo. Ao abrir a barraca, Lilian viu o corpo de uma garota de aproximadamente 16 anos jogado em frente à ela. A menina estava pálida, molhada e, para o desespero de todos, morta. Ouviram algo se aproximar, mas não viram nada. Rafael tentava ligar para alguém, mas o celular não funcionava. Quase não deu tempo de ver a sombra de um homem alto se aproximar e logo o viram rasgando a barraca com o seu facão. O grupo de amigos correu em direção ao local de onde vieram com o máximo de velocidade que suas pernas eram capazes de alcançar.

Quando estavam se aproximando da saída, um menino caiu de uma árvore com uma corda no pescoço, em frente à uma velha cabana de tamanho médio, caindo aos pedaços. Ele era jovem, 10 anos no máximo. Ficaram paralisados com a imagem macabra do garoto. Voltaram a realidade quando viram o homem alto correr muito depressa em direção a eles, e então ''voaram'' para fora do lugar.

Ao amanhecer, Carol e os amigos foram até a reserva onde os guardas cuidam a floresta. Intrigados pelo acontecido, os campistas perguntaram a eles se algo já havia acontecido naquela mata antes. Os guardas disseram que antigamente haviam boatos de que um lenhador, psicologicamente perturbado pela perda de sua esposa, teria, no dia 15 de setembro de 1934, afogado a sua filha em um córrego que passava por dentre as árvores, e enforcado o próprio filho no carvalho mais alto das redondezas, e que, se alguém perturbasse o local, seria incomodado pelos espíritos.

Os amigos continuam acampando, mas agora eles acharam um novo local, e sempre perguntam para as pessoas que moram nas proximidades se algo já aconteceu por alí.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

3º andar

Anna era quieta, envergonhada, conversava com uma ou duas funcionárias da escola na hora do intervalo. Lia seu dicionário quando não estava estudando para outra coisa. Jamais seria capaz de fazer mal à ninguém.

Treze de setembro de 1995, Anna aguardava na fila da cantina o lanche que havia pedido. A escola parecia diferente naquele dia nublado e seco, tudo estava tão calmo, neblinado, chegava a ser até um tanto sombrio. A garota ouviu seu nome, como um sussurro, várias e várias vezes, mas não conseguia encontrar quem a chamava.

Pediu para que a merendeira esperasse um instante, enquanto ela ia buscar o dinheiro que havia esquecido na mochila, mas na verdade ela estava intrigada com os chamados e foi revistar cada canto da escola. Procurou no banheiro, nas salas, no auditório, na biblioteca, mas nada de encontrar uma pista.

Uma semana depois, enquanto aguardava o sino do lado de fora da sala de aula, depois de terminar a prova, Anna ouviu uma voz citar um trecho de seu livro preferido. Foi rápido, e ela demorou um pouco pra entender o que tinha escutado. Horas depois, conversando com o simpático e velho zelador, a menina disse o que ouvira, já que o homem também contava suas histórias intrigantes de vez em quando. Como era interessada em livros e relatos, ela perguntou se nada de diferente tinha acontecido naquela escola. Ele dissera que não, pelo menos não depois de se tornar uma escola. E a conversa foi seguindo.

- Setembro de 75, lá pelo dia 20, uma garota, Angélica, estudiosa e meiga, estava na biblioteca do 3º andar, onde agora é aquela sala velha e cheia de bagunça. Ela só conseguia se concentrar lá, onde não havia nenhum ruído. Quem dera eu te-la avisado sobre aquela sala, sobre as histórias que antecedem este lugar...

- O que o senhor que dizer com isso? - interferiu Anna.

- Há muitos anos, antes deste lugar se tornar qualquer coisa, foi um hospício. Antigamente, as coisas eram diferentes. As pessoas não eram bem tratadas, não eram nem mesmo tratadas como humanos. Haviam várias salas especiais, reforçadas, entende? Para os pacientes mais agressivos, como Katherine. Ela se debatia toda noite, gritava por ajuda, dizia que demônios estavam incomodando-a. Claro que, em um hospício, ninguém se importa com esse tipo de surto. Um certo dia, quando a moça voltava do banho de sol, de alguma maneira conseguiu se soltar. Sabe, Anna, isso não era possível, não para um humano pelo menos. Três guardas a seguravam, e ela matou os três em segundos. Caiu no chão, tremendo, gritando, dizendo que o mal a possuía e que ela estava amando aquilo. E então, ela enfiou um lápis no próprio peito.

- Isso é mesmo horrível, zelador. Mas o que tem a ver com a história de Angélica?

- A sala onde Angélica estava foi a sala onde essa mulher se matou. Angélica me dizia que coisas estranhas aconteciam lá de vez em quando, sabe? Barulhos nas paredes, arranhões no chão, mesas e cadeiras que de vez em quando saíam do lugar onde foram colocadas. Eu nunca contei à ela, não queria assustá-la. Um dia as garotas do último ano perceberam que Angélica subia até o 3º andar, e decidiram infernizá-la. Durou 3 ou 4 semanas, se bem me lembro. Até que ela não pôde mais aguentar. As duas meninas e Angélica foram encontradas mortas com um lápis enterrado no peito.

O clima ficou tenso naquela conversa, então Anna mudou de assunto para tentar não pensar muito naquilo. No dia seguinte, com muita coragem e audácia, Anna subiu até a sala onde as garotas foram encontradas mortas. A sala, que costumava estar em total desordem, estava limpa e arrumada. Na mesa que ficava exatamente no meio da sala, havia um livro de capa azul, aberto. Anna chegou perto e percebeu que algumas palavras estavam sublinhadas. Puxou uma cadeira e sentou-se. Era o diário de Katherine. As partes marcadas de tinta preta diziam ''Eu não posso mais suportar, eles não me tratam como deviam. Eu preciso fazer alguma coisa, viver nessa tortura, eu não posso... apenas não posso. Tomei uma decisão complicada, mas definitiva. Os lápis estão no meu bolso direito, de hoje não passa. A partir de hoje, ninguém mais me incomodará.'' Quando acabou de ler, Sara, Linda e Heloísa entraram na sala. Essas eram as três garotas que riam de Anna por ela se preocupar mais com o estudo do que com a beleza.

- Olha como o cabelo dela está mais sujo que o normal.

- Isso só nojento, olha a cara dela, me dá vontade de vomitar.

- Vai chorar, querida?

Vinte e um de setembro de 1995. Quatro garotas encontradas mortas com um lápis no coração. Isso nunca acabará.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A estrada de corpos

Era tarde quando João e Andreia voltavam de viajem. Tinham ido visitar a mãe de João, que estava bem debilitada. Os dois estavam muito cansados, mas decidiram continuar a estrada, já que por perto não havia nenhum hotel.

João, com muito sono, por um instante desviou da rota normal e foi parar numa estreita estrada de barro batido. Andreia já dormia, por isso nem percebeu o que o marido fizera. Não demorou muito e o carro começou a tremer, como se estivesse passando por vários quebra-molas. A mulher acordou num pulo.

- JOÃO! Você saiu da estrada, não foi? Eu disse pra me deixar dirigir, eu disse.

Brava, ela abriu a porta. Ao colocar o pé no chão, percebeu que não estava pisando em barro nem no asfalto. Era algo mole, no qual, em pé, ela não conseguiu se equilibrar e caiu. O único poste do local encontrava-se bem na frente de onde eles estavam. Ao abrir os olhos, Andreia viu que estava sobre vários corpos em decomposição.

O cheiro não enganava. João desceu do carro correndo após o grito da esposa. Aos poucos, a neblina foi saindo, e foi nesse momento que os dois entraram correndo no carro, acendendo o farol imediatamente. Feio isso, viu-se que os corpos iam quilometros a frente. Resolveram aguardar no carro, já que, se voltassem passariam em cima dos corpos, e se prosseguissem, o mesmo aconteceria, e Andreia parecia querer evitar isso.

Dormiram aproximadamente umas cinco ou seis horas. Levaram um susto quando acordaram. O tempo estava do mesmo jeito. Tudo muito escuro, neblina forte e um vento tenebroso, como se as horas ali nunca tivessem passado. João ligou novamente a luz. Tudo parecia igual, a não ser pelo fato de que, agora, o capô do carro estava coberto por sangue fresco.

- Vamos sair daqui agora, Andreia. Não fico mais nenhum segundo nesse lugar!

Ela concordou. Ele girou a chave, mas nada aconteceu. O carro não funcionava de jeito nenhum, e claro que nenhum dos dois desceria para olhar o motor. João abriu o vidro do carro pra não sufocar ali dentro, e gritou:

- SOCORRO! ALGUÉM AÍ? ESTAMOS PRESOS AQUI, POR FAVOR, PRECISO DE AJUDA.

Uma voz rouca e muito grossa respondeu, não muito distante:

- Não tem como sair daqui, pobre visitante.

Ao terminarem de ouvir esta frase, um rosto demoníaco e completamente deformado apareceu na frente do carro. Novamente, João girou a chave. E, novamente, o carro não funcionou.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Elevador

Antônio voltava do trabalho numa turbulenta sexta-feira a noite. Morava num prédio de 16 andares, e seu apartamento ficava no 8º andar. O edifício tinha o nome de ''Diabolus in Flammas'', era tricentenário, e recebeu esse nome porque a igreja condenou moradores, acusados de fazer o que naquela época era bruxaria.

Antônio chegou na garagem, entrou no elevador trabalhado com madeira rústica e velha, apertou o botão do 8º andar e esperou. Ao chegar no local, percebeu que tudo estava diferente. Tudo parecia escuro e um tanto anormal. Ao longe, ele via sombras passando rapidamente, a toda hora, até que uma delas veio se aproximando vagarosamente, até chegar a 2 metros da porta do elevador.

Quando isso aconteceu, a porta fechou, e o elevador subiu 4 andares e meio até parar. As luzes se apagaram. O ambiente ficou frio. As luzes se acenderam. Um garoto pálido vestindo um terno preto apareceu ao lado do homem. Ele ficou paralisado. O menino sangrava pela cabeça, olhos e pulsos.

Aquela estranha figura foi chegando cada vez mais perto, até que, novamente, tudo ficou escuro. O elevador voltou ao 8º andar. Os corredores continuavam escuros e sombrios, e a sombra da mulher permanecia no mesmo lugar. Quanto mais ela chegava perto da luz do elevador, mais terrível aparentava ser. Seu rosto era rasgado, sua boca era retalhada, e ela andava se contorcendo.

Antônio, desesperado, começou a gritar por socorro, quando o elevador caiu com tudo, parando no 2º andar, quando começou a descer normalmente. Ele saiu correndo, e foi dormir na casa da namorada. Dois dias depois voltou ao prédio e perguntou ao morador mais antigo, o Seu José, de 98 anos mas com a saúde em dia, se o local tinha alguma história. Seu José disse que havia incontáveis histórias, e, segundo ele, todas verdadeiras. Antônio contou o que havia acontecido com ele dias atrás, e na hora o velhinho se lembrou.

Começou a contar que a mais ou menos 100 anos, Uma mulher entrou no elevador com seu filho de 13 anos. Eles subiram até o 8º andar, onde o elevador parou. A mulher desceu, distraída, pensando no casamento lindo que acontecera a pouco, e o garoto ficou. A alguns passos a moça reparou que seu filho não a seguia, e, ao olhar pra trás, o viu desmaiado ainda dentro do elevador. Ela correu, mas a porta fechou antes que ela entrasse. Ele subiu mais 4 andares, quando novamente abriu.

Dois homens aproveitadores de crianças estavam ali (estranha/ruim coincidência, não?), e tentaram abusar do garoto, mas ele acordou, e lutou com todas as forças. Não foi o suficiente. Com uma faca, os homens cortaram seus pulsos, furaram seus olhos e sua cabeça. A mãe, ouvindo os gritos, puxou a porta com muita força, até que abriu. Abriu com tudo. Ela perdeu o equilíbrio e caiu. O elevador praticamente despencou em cima dela, matando-a instantaneamente.

Depois disso, todos que pegam o antigo elevador passam por essa situação.

sábado, 13 de outubro de 2012

Crescent Hotel

Localizado em Eureka Springs (EUA), o prédio abrigou até a década de 20 um internato feminino. O local foi comprado na década seguinte pelo médico Norman Baker, que dizia ter a cura para o câncer e o casarão serviu como um lugar onde o médico-monstro fazia as suas fracassadas experiências. Desde então diz-se que as almas dos pacientes torturados e mortos continuam voltando para assombrar os hóspedes. A fama de mal assombrado do hotel é tão grande que a instituição criou um serviço específicos para os curiosos: excursões no meio da noite em busca das almas penadas. Por U$ 279 por casal, é possível andar pelas instalações com um guia no meio da noite em busca de sinais de assombração.

sábado, 29 de setembro de 2012

Anna Morton

Anna Tristan Morton, nascida em 19 de Janeiro de 1896 e morta em 3 de Abril de 1983, foi vista pela segunda vez pela janela da Casa Morton (onde sua família morou por 3 décadas) por intrusos que procuravam um pouco de diversão no local. Segundo os mesmos, Anna parecia infeliz, e batia na janela, revoltada.

Em 1934, com 38 anos, a srta. Morton foi asilada em sua casa, com janelas e portas vedadas, pois seus pais acreditavam que ela sofria algum tipo de transtorno, como o transtorno do pânico ou algo do gênero. Os vizinhos ouviam gritos de desespero todas as noites,e diziam que a moça socava as portas e os móveis.

Aos poucos, sem saber o que fazer, os vizinhos foram se mudando e se mudando, até que não sobrou ninguém a 1 km de distância da Casa. Desesperada, a moça asilada tentou se suicidar mais de cinco vezes, sem ''sucesso''.

Mas como ela sobreviveu tantos anos presa? Como comia e bebia? Três vezes por dia, sua mãe levava-lhe comida, água e produtos de higiene, o suficiente para sobreviver. Anos se passaram, e em Abril de 83 Anna se enforcou na escada, com 3 lençóis amarrados uns aos outros.

A primeira vez que foi vista depois de sua morte foi em 25 de Outubro de 1994, quando um viciado em cocaína invadiu o terreno na casa para cheirar escondido da polícia. Assustado, correu e confessou seu vício e todos os seus crimes, se enforcando no dia seguinte. A segunda vez foi quando, novamente, intrusos invadiram o terreno, como já dito. Mas, o que não foi falado é que, no outro dia, os 4 jovens invasores se enforcam. E, finalmente, a terceira vez foi hoje. Sim, quando você olhar para trás verá Anna Morton com marcas roxas no pescoço, e ela chegará a 5 cm do seu rosto, gemendo numa voz rouca e demoníaca. Cuidado, você sabe o que acontece amanhã.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Diário de Helena - Parte V (Final)

08/02/1989 – 07:40 a.m - Tudo pronto pra sair desse inferno. Chamamos o seu Valdir pra ir conosco, mas ele diz que não sabe viver em outro lugar além dali. Estamos muito tristes, e eu não consigo segurar as lágrimas. Vamos levar o corpo na carroceria , quando chegar na cidade levaremos pra uma agência funerária, ou, não sei, não entendo dessas coisas. Não tenho mais palavras agora.

08/02/1989 – 13:32 p.m - Finalmente! Um pouquinho mais aliviada por sair da floresta. Os meninos nos deixaram aqui no Black Night e foram cuidar do corpo. Não tenho a mínima ideia de como vamos falar pros pais do Márcio. Quem diria que meses planejando um simples acampamento acabaria numa tragédia. Os meninos acabaram de chegar com o carro, vamos ver no que deu, até.

08/02/1989 – 19:04 p.m - Chegamos em casa, já contamos o que houve. Todos estão de luto, velaremos o corpo na casa do Márcio amanhã. Encontraram um desenho indígena, provavelmente feito com faca, na parte interna da garganta do Márcio. Eu não sei o que pode ter feito isso, só sei que jamais quero voltar naquele lugar infernal. Vou guardar o diário, como uma lembrança ruim, a qual nunca mais quero ter.

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16/05/2008 - Meu nome é Karina, sou filha da Helena. Achei esse diário na caixa de lembranças, no sótão. Não li o que está escrito, pois se está escondido não é pra ser lido. Bom, como eu não tenho um diário, vou levar esse pro acampamento que vou com meus amigos. É uma mata fechada, parece legal. Vou escrever diariamente as experiências. Tomara que tudo de certo.

Diário de Helena - Parte IV

07/02/1989 – 06:05 a.m - Ah! Hoje acordamos bem cedinho com o cheiro do chimarrão fervendo. Já estamos a uma hora acordados, acordamos antes mesmo de ficar claro. Foi uma noite boa, mas nem tão tranquila. Por volta de 02:00, 02:30, ouvimos baterem na porta. O seu Valdir, saiu do seu quarto com a espingarda, e bem devagar abriu a porta. Não tinha nada. Do nada entrou um vento muito gelado na casa, todo mundo sentiu a energia pesar, mas logo foi embora. Ele disse que volta e meia isso acontece, e que ele também tem medo, mas que era pra nós voltarmos a dormir tranquilamente, que isso não ia se repetir. Mais ou menos dez minutos depois, eu e a Laura vimos um vulto passar bem rápido na janela, e sem seguida um estrondo na mata, mas ficamos bem quietas e deitamos. Cinco horas todos acordaram, tomaram um banho, escovaram os dentes e começamos a tomar o chimarrão, que por sinal está maravilhoso. Vou aproveitar a tranquilidade, porque mais tarde tem caçada, senão não tem jantar.

07/02/1989 – 13:20 p.m - Estamos saindo agora pra caçar. Comemos pão com queijo fresco, tudo muito bom. Eu nunca cacei nada, não sei nem segurar uma arma, então só vou acompanhar de vista mesmo. Nosso anfitrião disse que sempre ouve barulhos estranhos quando está caçando, então não era pra ficarmos com medo, como se isso funcionasse comigo. Vejamos se consigo pelo menos ver um animal pra ajudar na caçada.

07/02/1989 – 20:51 p.m - Oh meu Deus! Eu nunca estive mais apavorada, em pânico, assustada e tremendo de medo na minha vida. Depois de umas seis horas de caçada, já escuro, nós nos perdemos na mata. Conseguimos matar dois porcos, mas não conseguimos voltar pra casa. Ficamos andando, rodando, andando, rodando, e nada. De repente, ouvimos uma coisa grande se aproximando, e um vento muito forte e gelado pairou ali. Aquela coisa ia chegando perto, e mais perto, até que pareceu subir na árvore. O seu Valdir nos olhou e pediu pra nós corrermos, porque aquilo poderia ser muito perigoso. Quando demos as costas pra procurar o caminho, uma criatura de aproximadamente dois metros e meio, muito magro, de cabeça grande, olhos esbugalhados, mãos enormes, e dentes afiados pulou de cima da mais alta árvore, sem sequer se ferir. Essa coisa, que parecia um índio, ficou nos encarando, e indo cada vez mais pra cima. Um dos meninos disse pra nos afastarmos, e de repente a criatura berrou. Um grito arrepiante, muito alto e grave, que durou por mais de dez segundos. Apesar de aparentar, aquilo não era humano, nunca tinha ouvido de falar de algo parecido. O bicho quebrou o pescoço do Márcio, e eu apavorada gritei, e aquilo veio imediatamente pra cima de mim. Quando estava quase me alcançando, o seu Valdir atirou nele, e então ele se afastou, e escalou a arvore, desaparecendo em seguida. Agora estamos aqui, desesperados, perdemos nosso melhor amigo. Eu não sei o que faço, vamos esperar amanhecer pra irmos embora, agora é arriscado.

08/02/1989 – 04:12 a.m - Eu não vejo a hora de ir embora desse pesadelo. Isso me deixa cada vez mais nervosa e apavorada. Agora a pouco pensei ter ouvido a voz do Márcio pedindo socorro, mas o anfitrião pediu pra nós não sairmos da casa, pois logo que sua esposa morreu, ele ouviu a voz dela o chamando por dias, e quando finalmente tomou coragem pra ver o que era, tinha uma sombra dentre as árvores, o chamando com a voz dela. Só quero que isso acabe logo.

Diário de Helena - Parte III

06/02/1989 – 09:13 a.m - Tudo está bem! O Lucas, Carol, Márcio e o Guga voltaram, mas os dois sumidinhos voltaram bem machucados. Disseram que estavam se beijando, quando ouviram um barulho muito forte de alguém pulando na árvore, e logo em seguida, viram uma sombra enorme vindo muito rápido, e apagaram. Foi super estranho, e eu to começando a entrar em pânico. Já falei pra todo mundo pra nós irmos embora, mas eles acham que eu sou paranoica. Eu e o Leandro ficamos essa noite, foi maravilhoso, e isso é a única coisa que me conforta. Vou tentar ficar mais calma, e escrevo mais tarde, beijos!

06/02/1989 – 13:00 p.m - Estamos almoçando só agora! Peixe de novo, mas tá muito bom. Agorinha a pouco fomos andar pela mata, onde o Luquinhas e a Cah foram ontem, pra ver se tinha alguma evidência de animal, um grande, mas só tinha uns arranhões, iguais aos da outras árvores. Pela segunda vez, tinha barraca desarrumada, mas dessa vez é a minha. Não sei o que ta acontecendo, eu arrumei quando acordei, e ninguém ficou no acampamento, então, Omo ela se desarrumou? Sozinha é que não foi...mas tudo bem. Vou terminar de comer.

06/02/1989 – 15:21 p.m - Andando pela floresta, explorando de novo, nós achamos uma casinha de madeira, que parecia abandonada. Batemos na porta, e nada, mas não podia ser abandonada, porque eu olhei pelo vidro e tudo estava tão arrumadinho, tinha até cheiro de comida no fogão. Ficamos esperando um pouco, e de repente saiu um velhinho da floresta, com uma espingarda, e um porco do mato nas costas. Ele cumprimentou todo mundo, chamou a gente pra entrar, é um senhor bem simpático mesmo. Mora sozinho nessa casa desde que a mulher dele morreu, faz 4 anos. Ele nem liga, diz que tudo que ele precisa pra viver tem na mata. Nós contamos a história de ontem pra ele, e ele disse que a mata é um lugar muito, muito perigoso, e que a gente tava se arriscando acampando nela. Ele foi prepara um chá pra nós, quando voltar ele vai contar umas histórias do lugar, daí eu vou resumir pra escrever no diário.

06/02/1989 – 21:07 p.m - Então, agora eu estou 5 vezes mais apavorada! Vou explicar o porque. Primeiro: eu tenho medo de história de terror, principalmente quando são reais. Segundo, o seu Valdir, o senhor que encontramos nos contou a seguinte história: A muitos anos atrás, não se sabe exatamente quando, mas provavelmente no século passado, a floresta era habitada por uma aldeia de índios canibais. Eles pegavam todas as pessoas que não eram da tribo e as comiam vivas. O chefe, ou Cacique como é chamado o chefe da tribo, era um homem muito alto, corria muito rápido, era muito habilidoso para subir e pular em árvores. Um dia, um homem estranho chegou a tribo. Branco, olhos negros, bem arrumado e gordinho. Sem saber que havia uma tribo ali, foi se alojando. Um dia, quando acordou, sua barraca estava cercada de indígenas. Rapidamente, sacou duas armas e, com muita habilidade, matou todos os homens que o ameaçavam, deixando apenas o cacique vivo, que estava bem escondido em sua oca. Revoltado com o homem branco, o cacique o espancou até deixa-lo desacordado, e o amarrou na oca. Quando o homem acordou, estava sem sua perna direita. O cacique disse que o comeria bem lentamente, e isso era o castigo dele. E assim fez. Quando terminou de matar o homem branco, se sentia mais vivo, forte e habilidoso, e que o estranho homem que comera era uma espécie de semi deus, que dava vida eterna. A oca foi destruída com o tempo, e não se sabe o que houve com o cacique. Bem, isso é apenas lenda indígena, ou real? Eu não sei, mas gosto de acreditar nessas coisas, mesmo tendo medo. Estamos voltando pro acampamento agora, vamos pegar nossas coisas e trazer aqui pra casa do seu Valdir, vamos dormir com ele, é mais seguro. Até qualquer momento.

06/02/1989 – 23:19 p.m - Estamos de volta a casa. Já desmontamos as barracas e colocamos os colchonetes na sala, perto da lareira, pra ficarmos bem quentinhos. Acho que essa noite vai ser mais tranquila, me sinto mais confortável e protegida. Vamos ficar conversando mais um pouco, até dar sono.

Diário de Helena - Parte II

05/02/1989 – 08:10 a.m - Acabamos de acordar! Os meninos estão preparando o café, e as meninas estão se arrumando na barraca. Tirando o medo da noite, foi tudo ótimo. A barraca do Márcio tem umas manchas estranhas, parece que alguém colocou a mão suja de barro lá, mas é uma mão meio grande... bem estranho. Mas eu to muito feliz por estar aqui com meus amigos. Hoje nós vamos explorar a mata, ver se achamos um riacho pra pescar, coisas assim. Vou levar meu diário comigo, pra relatar alguma coisa, se acontecer. Até mais!

05/02/1989 – 13:25 p.m - Ah, que ótimo! Achamos um córrego pra pescar. Já peguei 3 peixes, e olha que fui a que peguei menos. Hoje já tem janta!!! Quando a gente tava vindo pra cá, vimos uns arranhões nas árvores, tipo urso, mas aqui não tem ursos. Também ouvimos alguma coisa pulando de árvore em árvore, mas não vimos nada. Agora nós estamos pescando, e bebendo as cervejas que os rapazes trouxeram, vou tentar pegar 10 peixes, com certeza vou escrever mais depois, mais tarde!

05/02/1989 – 19:02 p.m - Não consegui pegar 10 peixes, mas no geral, temos janta pra dois dias! O Lucas sumiu com a Carol no meio da mata, não sei o que os dois estão fazendo, mas eles estavam se olhando desde o Black Night, eu e todo mundo percebeu isso. Eu gosto do Leandro, mas não sei se ele ta afim de mim. Ele me olha diferente, mas, eu não vou ficar dando em cima dele. Quando chegamos da pescaria, a barraca da Liz e do Gustavo tava toda revirada, completamente desarrumada, mas eu vi que ela organizou tudo antes de sair pra pescar. Deve ter sido brincadeira de algum menino, eles adoram fazer essas coisas com a gente. Enfim, quando formos dormir eu escrevo mais, nem que seja só um ‘’boa noite’’.

06/02/1989 – 01:37 a.m - Todos estão muito preocupados, porque o Lucas e a Cah ainda não voltaram. Nós gritamos, sinalizamos, mas nenhuma resposta. O Márcio e o Guga foram procurar eles, acho que ninguém vai dormir até os 4 estiverem aqui. Eu vou deitar na barraca do Leandro, ele me chamou pra dormir com ele, e as meninas vão ficar umas com as outras, dormir na mesma barraca, por segurança. Então, até amanhã, tomara que tudo fique bem.

Diário de Helena - Parte I

04/02/1989 – 10:47 a.m - Hoje sairemos da grande cidade e partiremos pro interior, numa mata bem fechada, e grande. Nós vamos acampar. AH! Mal posso esperar por isso, a gente ta querendo acampar a meses, e parece que finalmente vai dar certo. Daqui a pouco eu e minhas duas amigas, Caroline e Laura, vamos sair daqui de casa pra ir encontrar o Luquinhas, o Leandro e o Márcio. Nós vamos na caminhonete deles pra lá. É meio longe então a gente deve chegar lá bem tarde, tipo umas 21:00 horas, por ai. Mais tarde escrevo mais.

04/02/1989 – 16:30 p.m - Ah que emoção. Nós estamos a caminho da floresta onde vamos acampar. A mais ou menos uma hora, passamos pelo ‘’Black Night’’, um bar de beira de estrada. É um barzinho muito legal, mais específico pra rockeiros mesmo, daí a gente fico ali, curtindo um rockzinho, bebendo, conversando. Encontramos a Liz e o Guga, namorados. São amigos nossos, vão no carro deles acampar também, já que não tinham nada melhor pra fazer nesse feriado. Bem, acho que quando chegarmos lá, eu escrevo um pouco mais de como foi a viajem. Beijos.

04/02/1989 – 22:14 p.m - Bom, chegamos finalmente! Faz uma hora eu acho, mas esperei pra escrever porque estávamos montado as barracas, tentando acender uma fogueira, essas coisas de acampamento. Aqui é super legal. Isolado de tudo e de todos, ficamos bem no centro da floresta eu acho, não da pra ouvir nada além de uns barulhos que vem de todos os cantos, mas é assim mesmo, em floresta, certo? Os meninos ficaram mais afastados, eles colocaram as barracas deles numa espécie de triângulo, e nós ficamos no meio, fizeram isso pra deixar as meninas mais protegidas, eu acho. Então, nos próximos dias eu vou escrever como ta sendo aqui, então, até qualquer hora, durmam bem. Um beijo meu e das garotas.

05/02/1989 – 02:53 a.m - Eu decidi escrever agora porque eu to com um pouco de medo, e escrever me acalma. Eu ouvi um barulho, deve ser de algum animal grande, chegando cada vez mais perto. O Leandro saiu da barraca, e disse que viu uma sombra estranha na floresta. Todo mundo ta com um pouco de medo, mas acho que eu to levando mais a sério. Não deve ser nada, eu que sou boba com essas coisas. E vou tentar dormir agora, até amanhã, espero!

terça-feira, 10 de julho de 2012

O espírito vingativo

Meu nome é Andressa, tenho 46 anos. O que eu vou contar aconteceu a 6 anos, quando minha filha faleceu. Era um dia muito frio, e eu fui pra cozinha preparar chocolate quente, enquanto ela ficou na sala com seu namorado, o Caio. Antes de namorar esse rapaz, minha filha era linda. Tinha um cabelo até o meio das costas, unhas bem cuidadas, não fumava nem bebia. Depois que essa paixão apareceu, ela se perdeu nas bebidas e drogas, cortou e pintou o cabelo, ficou desleixada, mas de qualquer forma, eu era a mãe dela, tinha que cuidar. Bom, fui pra cozinha. Depois de algum tempo, escutei ela gritar de dor, e ouvi a porta da sala bater. Quando cheguei lá, ela estava com uma faca enfiada na garganta. Me desesperei, é claro. Mas não tinha mais volta, ela já havia morrido. Exatamente um ano depois, eu passei pra comprar uma revista na banca de jornais que tem na esquina da loja onde eu trabalho, e num dos jornais estava como manchete: GAROTO DE 17 ANOS MORRE ASSASSINADO COM FACADA NA GARGANTA! Comprei o tal jornal. Levei um grande susto ao saber que o menino que tinha morrido era o ex-namorado da minha filha. Achei muito, muito estranho mesmo, ainda mais porque no jornal dizia que não havia sinais de invasão ou qualquer tipo de vestígio, mas essas coisas acontecem. No ano seguinte, passando pela mesma banca de jornal, vi uma nova manchete: MAIARA ARAÚJO, DE 18 ANOS MORRE ASSASSINADA COM A GARGANTA CORTADA! Era muita coincidência. Maiara Araújo era a menina que minha filha desconfiava ser ‘’amante’’ do ex namorado dela. Resolvi procurar um centro espírita que minha amiga indiciou depois de saber da história. Nada adiantou. Fui pra casa frustrada por não conseguir falar com a minha menina. Entrei no quarto que era dela. Já estava praticamente vazio, já havia vendido todas as suas roupas, objetos, tudo. Quando eu estava saindo do quarto, a porta bateu bem forte. A cama e a escrivaninha que eram os únicos móveis que sobraram no quarto se mexeram. A janela quebrou e um vento muito, muito gelado dominou o quarto. Ouvi a voz dela e me virei. Ela estava lá, em pé, magra, feia, nem parecia o meu bebê. Ela se aproximou de mim e me agarrou pelo pescoço, tirou uma faca enorme do vestido e me disse que eu a sufocava demais enquanto ela vivia, não a deixava sair nem nada, mas eu só tentava proteger. Ela gritou e disse que voltaria logo, e de repente sumiu. Tudo voltou ao normal. No dia seguinte eu peguei todos os livros, colares, tudo o que sobrou dela, inclusive a pulseira de capim que ela fez pra mim com 5 anos, e queimei na lareira, pois tava muito frio e não tinha mais lenha pra esquentar, então aproveitei que queria me livrar de tudo que me lembrasse ela, queria ficar só com seus sorrisos na minha cabeça. Quando joguei a pulsei que me fizera, senti um calor atrás de mim, e quando olhei, era minha filha Lara queimando, gritando de dor, e novamente, sumiu. Depois desse dia não senti nenhuma vibração diferente na casa, nada estranho aconteceu. Não sei se tem a ver com o que houve nesse dia, mas, acho que ela está mais feliz agora, como eu estou.

sábado, 2 de junho de 2012

O pomar

Meu nome é Ana Flávia, tenho 25 anos. Eu, meu marido e vários amigos, todo ano, fazemos uma feijoada no dia 15 de fevereiro, pra comemorar o aniversário da tia Luíza, uma senhora de 98 anos que é dona de uma chácara, a qual nós fazemos a feijoada. No ano passado, tudo Coria bem, como de costume. Compramos os alimentos, alugamos as mesas, tudo certo. Chegada a noite, as pessoas já estavam se divertindo. Dançavam, cantavam, pulavam e tudo mais. Eu e mais quatro pessoas preparávamos as comidas, bebidas, tudo, quando minha amiga inventou de fazer um ponche. Fui ao pomar buscar algumas frutas pra isso. Chegando lá, o barulho da festa já era baixo, pois fica bem longe da sede da chácara. Peguei várias frutas, e quando já estava quase saindo de lá, ouvi uma voz dizer: Me ajude! Minha espinha gelou. Olhei pra trás e não vi ninguém. Sai correndo e chamei meu marido, mas não contamos pra mais ninguém. Ele foi lá e também ouviu a voz. Procuramos por todo o pomar, mas não achamos nada. Acendemos os refletores, que iluminou um pouquinho. Ele foi pra direita e eu pra esquerda, depois de 10 minutos, se ninguém encontrasse nada, nos encontraríamos ali. Procurei nos pés de poncã, laranja, tudo que tinha lá, e nada. Pensamos que poderíamos procurar quando amanhecesse, seria bem mais fácil. Quando estávamos voltando pra festa, vi alguma coisa no pé de goiaba, o único que nenhum os dois tinha olhado. Chegamos mais perto e vimos uma menina, muito jovem, de uns 16, 17 anos, enforcada entre dois galhos, morta. Provavelmente ela foi roubar goiaba, e escorregou, ficando presa, e como os galhos são grossos, ela não conseguiu se soltar. Corremos pra buscar ajuda, e quando voltamos ao local, não havia mais ninguém. Nenhum sinal de vida, ou morte. A tia Luíza nos contou, que quando ela era jovem, tinha uma vizinha muito bonita, e elas se odiavam. Uma ia a casa da outra pra roubar frutas e quebrar plantações. Suas famílias eram rivais. Certo dia, a menina foi pegar goiaba no quintal da tia Luíza, e ela viu. Chegou o mais perto possível sem que a vizinha visse e gritou. A garota levou um susto tão grande que escorregou, e ficou presa entre dois galhos. Tia Luíza diz que tentou ajudá-la, mas nem ela conseguiu retirar a menina. Depois disso, a tal jovem sempre aparecia no pomar, assombrando a tia e todos que entravam no pomar.

A represa

Meu nome é Hugo, tenho 17 anos. Todo ano vou visitar minha avó que mora no Paraná. A casa dela, e de todos da vila, foi construída de modo que o quintal é uma represa. Eu gosto muito de ir lá pra tomar banho na represa, que é enorme. A uns 5 meses fui lá, nas férias. Comi os bolos que minha avó sabe fazer maravilhosamente, peguei o caiaque e fui remando até o meio da represa, onde tem uma minúscula ilha. Na verdade é só um pedaço que sobrou do monte de areia que tinha antes de inundar e virar represa. Fiquei sentado na ilhazinha observando tudo, quando de repente vi, lá no fundo, alguém supostamente se afogando. Novamente, pulei no caiaque e remei o mais rápido possível. Pra chegar lá, tem que passar por trás e uma árvore grande, e quando ultrapassei essa árvore, não vi mais ninguém se afogando, mas continuei remando até o local. Chegando na margem, procurei a pessoa por todos os cantos possíveis, mas não achei ninguém. Quando eu estava no meio da represa, voltando pra casa da minha avó, vi umas bolhas subirem a superfície da água. Mergulhei sem pensar nas consequências, pois poderia ter alguém morrendo afogado ali. Não, não tinha nada ali. Voltando ao caiaque, fui puxado pelo pé, e comecei a me afogar. Me batia desesperado por ar, até que consegui soltar e voltar pro ‘’barco’’. Remei bastante até ficar bem longe de onde aquilo acontecera, e olhei pra trás. Só vi o rosto deformado de um menino voltando pra dentro do lago. Ele era apavorantemente deformado. Branco, como quem perde todo o sangue do rosto, sem o olhos esquerdo, não tinha um pedaço da orelha, sua boca era torta e estava sem a maioria dos dentes e seu rosto estava com centenas de cortes. Chegando na casa da minha vó, contei tudo pra ela. Assustada, ela me disse que antes deu chegar a casa dela, uns 2 meses antes, um menino que morava do outro lado da represa desobedeceu o pai, um homem muito ruim que espancava os filhos e os torturava quando o respondiam, e o tal jogou o filho dentro de um canil onde havia dois cachorros famintos, que estraçalharam o garoto, que mesmo quase inteiramente retalhado, conseguiu fugir, mas o pai o amarrou pelos pés e aos e o jogou na represa. Ele conseguiu se soltar das amarras facilmente, já que não estavam tão apertadas, mas já era tarde demais. Quando conseguiu colocar sua cabeça pra fora, morreu, voltando ao fundo da represa. Duas pessoas além de mim já disseram ter visto o tal menino. De uma coisa eu sei, nunca mais entro na represa.

O homem da neblina

Me chamo Angélica, tenho 29 anos, e o que eu vou relatar aconteceu quando eu tinha 9 anos. Quando fiz 7 anos, meus pais me deixaram ir e voltar da escola sozinha., pois morávamos apenas a uma quadra de lá. Nada de ruim aconteceu comigo em dois anos, mas quando completei 9, as coisas mudaram. Em um dia, eu acordei bem mais cedo do que de costume, tomei banho, tomei café, e deitei novamente. Quando deu o horário deu ir pra escola, levantei, dei um beijo na minha mãe e pai, e fui chamar o Gustavo, meu amigo, pois nós íamos juntos. Quando eu saí de casa, vi que estava tudo nublado. A rua estava completamente deserta, o chão parecia nevado, pois estava um tanto branco. De qualquer forma, chamei o Guga e fomos a escola. Chegando na esquina, percebemos que tinha um homem, com aproximadamente 50 anos, magro, grisalho, com um sobretudo preto, nos seguindo. Nós viramos a esquina, desfazendo assim, da rota que nos levaria até a escola, só para ver se ele estava realmente nos seguindo. Não deu outra! O homem virou a esquina conosco. A rua em que viramos estava ainda mais deserta e nublada, o que não é nem um pouco comum. Começamos a correr, porque pensamos que poderia ser um pedófilo, estuprador, assassino, qualquer coisa ruim. Viramos mais uma esquina, desta vez do outro lado da rua. Adivinha o que nós vimos? Sim, o homem estava vindo em nossa direção. Mas como isso era possível? Estava atrás de nós, em outra quadra agora a pouco, aquilo não podia ser real. Mas era. Viramos e continuamos andando, de modo que ele ainda nos seguia. Fizemos a rota que nos levaria a escola. Chegando lá, eu e o Gu pegamos nossos lugares na janela do segundo andar. Enquanto a aula acontecia, com 10 alunos na sala, eu e meu amigo observávamos lá fora. O velho estava parado, em pé, no portão da escola, olhando para a janela do segundo andar. Mas eu não conseguia ver o rosto dele. Estavamos com tanto medo que não podíamos falar pra ninguém. E se ele fizesse algo conosco? Não, melhor não arriscar. No fim da aula, voltamos por outra rua. Agora o tempo já estava um pouco menos nublado, a visão estava mais nítida, mas ainda continuava deserta. Chegamos em casa sem ninguém nos seguir, não que percebemos pelo menos. O Guga ia almoçar na minha casa naquele dia, e dormir lá também. Almoçamos, brincamos a tarde toda, e finalmente chegou a hora de dormir. Ficamos na sala, em dois colchões que minha mãe colocou no chão. No meio da noite, acordei para ir ao banheiro, e vi que o Gustavo estava sentado numa cadeira, virado de frente pra parede. Perguntei o que tinha acontecido, mas ele parecia com medo, estava pálido e frio. Gelei na hora. Ele disse que tinha visto o homem dentro da casa, no corredor. Com medo, olhei. Ele realmente estava lá, no fim do corredor. Não conseguia gritar, agora nem falar eu conseguia. Apenas peguei pelo braço do Gu e deitamos no colchão, nos cobrindo completamente. Depois de uns 10 minutos, saímos debaixo dos cobertores e ligamos a TV. Sem conseguir dormir, ficávamos conversando sobre aquilo, quando ouvimos um barulho de batida na janela. Como o vidro da janela era ondulado, vimos somente o vulto do ser grisalho, mas nós conseguimos ver que ele estava com o rosto sangrando, e a boca dele estava aberta, como se alguém quebrasse o maxilar dele. A maçaneta começou a mexer, e então eu finalmente consegui gritar. Meu pai acordou assustado, então contei que um senhor tinha nos perseguido a manhã toda, e que agora se encontrava dentro de casa. Meu pai disse que era invenção minha, porque o homem que descrevi já tinha morrido a dois anos, atropelado no rosto por uma moto, quebrando o maxilar e morrendo instantaneamente. Ele ficou um pouco assustado, mas passou. Agora estou casada com o Gustavo, e temos um casal de filhos, que completam 9 anos semana que vem.

domingo, 22 de abril de 2012

Não está abandonada

Meu nome é Catarina, tenho 14 anos. Eu moro numa cidade bem grande, mas em todas as férias do meio de ano eu vou pro interior ficar na casa da minha avó. Lá é bem legal, eu e os vizinhos dela que são da minha idade, brincamos muito, principalmente de jogar bola. Eu adoro jogar, mas não tenho muito jeito. Um dia nós estávamos jogando, e eu chutei a bola muito forte, e caiu no quintal de uma casa que já está abandonada a um tempo. Ninguém teve coragem de entrar por causa das lendas, mas eu nunca acreditei nesse tipo de coisa, então fui sozinha. Procurei a bola em todo canto, mas não estava achando, e de vez em quando eu ouvia ela pingar no chão, mas quando seguia o barulho não havia nada. Fui para trás da casa, apesar de achar que a bola não estaria lá, pois não tinha chutado tão forte. Lá tinha uma piscina enorme, linda, e do lado da piscina eu vi uma menina com a bola na mão. Ela era linda, mas estava muito pálida e encharcada de água, vestia só uma camisola que ia até os pés e tinha a manga bem comprida. Pedi a bola, mas ela disse que só daria se eu brincasse com ela. Claro que eu não aceitei, eu nem a conhecia, mas ela insistia. Falei um não bem grosso, e a expressão dela mudou na hora. Parecia brava. Jogou a bola na piscina e pediu para que eu pegasse. Estava quase entrando, quando ela começou a tossir, como se estivesse engasgada, e saia água da boca dela, junto com sangue. Sai correndo e deixei a bola lá. Contei para meus amigos e nós voltamos para ver, mas não tinha mais nada lá. A noite, como de costume, a minha avó juntou todos na sala, fez chocolate quente e começou a sessão histórias de terror. A primeira história foi a seguinte: Um casal que morava na casa hoje abandonada, teve uma filha, e colocaram o nome dela de Catarina, como o meu. A menina não saia de casa, odiava brincar, então só ficava sentada perto da piscina, mas não entrava porque não sabia nadar. Certo dia, quando os vizinhos dela brincavam do lado de fora, a bola caiu na piscina da casa dela, e os meninos pularam o muro pensando não ter ninguém. Ao vê-los, ela pediu para que saíssem, mas não eles atenderam o pedido de Catarina. Ela tentou correr para chamar sua mãe, mas os meninos empurraram ela na piscina, e ela morreu. Depois disso, todas as pessoas que entram no seu quintal para pegar a bola são mortas. Talvez não imediatamente, mas morrem afogadas.

domingo, 15 de abril de 2012

Studio assombrado

Meu nome é Caroline, tenho 17 anos. Faço aulas de ballet desde que tinha quatro anos, no mesmo Studio. Quando comecei, o Studio era pouco frequentado, e eu não tinha muitas amiguinhas para conversar, então conversava com uma garota imaginária, que tinha 10 anos. Brincavamos muito naquele lugar, e eu gostava muito dela, mas de vez em quando ela me pedia algumas coisas estranhas, como empurrar, machucar as garotas que faziam ballet comigo, e a professora sempre brigava comigo, pois eu obedecia minha amiga imaginária. Fui crescendo e o Studio ganhou várias bailarinas novas, então fui esquecendo a Liliane, como eu chamava minha ‘’amiguinha’’. Me tornei uma excelente bailarina, e hoje danço para fora, em outros estados, mas moro no mesmo lugar e faço aula no mesmo Studio, como já disse. De alguns meses pra cá, comecei a chegar mais cedo para ter mais tempo de ensaiar os meus solos, antes das aulas começarem. Nos primeiros dias, não percebi nada, a não ser a sala um pouco mais abafada, mesmo com as janelas abertas, mas depois de umas duas semanas, coisas diferentes começaram a acontecer. Um dia cheguei bem mais cedo do que de costume, abri as janelas, liguei o ar condicionado e coloquei a sapatilha no pé direito. Quando me virei para pegar o par, não tinha nada. Procurei em todo canto, debaixo da arquibancada, na mochila, mas nada de achar. Sentei no chão e fiquei olhando para o espelho, quando percebi a minha sapatilha pendurada pelas fitas nas cortinas, bem no alto. Achei super estranho, até pensei que estivesse ficando louca, mas apenas coloquei a sapatilha e comecei a ensaiar. Minutos depois, eu fui empurrada com força e cai no chão. Me assustei muito e sai da sala. Tomei café, fui ao banheiro e voltei para a sala, mas desta vez deixei a porta aberta. Comecei a alongar enquanto olhava para os lados. Abaixei a cabeça para tocar os pés, e no momento que eu levantei, vi a cortina mexer, como se o vento batesse nela, mas ela mexeu com força, e quando olhei para fora, não tinha uma arvore se quer balançando, mas decidi ficar com a teoria do vento. Virei de costas para o espelho e voltei a me alongar, quando o aparelho de som da sala ligou sozinho, no volume máximo. Fui saindo bem de vagar, e quando estava na porta, as luzes começaram a piscar rapidamente, e os ventiladores que não funcionam começaram a rodar. Chamei um professor e ele entrou na sala comigo, mas nada aconteceu, de qualquer forma pedi para que ele ficasse perto, caso acontecesse alguma coisa. Liguei o som, e a música que tocava era de arrepiar. Era o barulho do vento, mas se ouvia alguns gritos de socorro e dor no fundo, então simplesmente troquei a música, mas a mesma voltava a tocar depois de 10 segundos. Desliguei na tomada e ensaiei sem música, até que o som liga novamente. Chamei o professor, mas ele não percebeu nada de diferente, estava tudo certo. Estava perto de começar as aulas normais, então sai e fui tomar água. Percebi algo atrás do bebedouro. Eram bonecas, as mesmas que eu brincava quando tinha quatro anos, eram as minhas bonecas, mas estavam rasgadas e com o pescoço virado. Entrei no banheiro, lavei o rosto, e quando fui pegar a toalha de rosto, ela caiu no chão. Tremendo, sai do banheiro e falei para as pessoas que estavam ali o que estava acontecendo, mas claro que ninguém acreditou. Voltei pra casa e contei para minha mãe com esperança de que ela acreditasse, mas nada. Deitei na cama e fiquei olhando para o teto, e de repente a porta do meu quarto range, abrindo bem devagar, mas ninguém entra. Me cobri com o edredom e fiquei imóvel. Segundos depois senti uma respiração cansada perto de mim. Levantei e corri para o quarto da minha mãe, mas ela não estava. Procurei por toda a casa, e quando fui na cozinha, as facas estavam todas foras da gaveta e uma delas rodava. Gritei pela minha mãe e ouvi a voz dela bem fraca vindo do banheiro. Entrei, e ela estava lá, se contorcendo toda, tremendo e sangrando pelos olhos. Liguei para um amigo da minha mãe que o padre da nossa igreja, e ele foi lá em casa. Fez uma espécie de ritual no qual minha mãe foi se curando aos poucos. Enquanto ela se acalmava, ouviamos barulhos e gritos em toda a casa. Foi horrível, mas com muito esforço ela ficou bem, e não conseguia se lembrar de nada. Dias depois, fui ler o meu diário que guardo a nove anos, e na ultima página estava escrito: Você me deixou esperando. Disse que iria brincar de boneca comigo, mas preferiu suas amigas. Agora estou sozinha no escuro, e não posso achar a saída, mas saiba que assim que isso acontecer, coisas piores vão acontecer. Liliane.